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COMO SERÁ O AMANHÃ?
COMO SERÁ O AMANHÃ?

 

COMO SERÁ O AMANHÃ?

 

Sem querer ser piegas - até porque sou a favor de viver o hoje intensamente - mas em tempos tão difíceis e num país com rumos tão incertos como o nosso, uma nova fobia tem tirado o sono de muitos de nós: o amanhã. Como será? O que fazer com as incertezas que nos atormentam?

 

As pessoas estão vivendo mais, principalmente no estado de São Paulo. Viver mais significa ter mais tempo. Você já parou para pensar que pode viver até os oitenta anos? E se isso acontecer, o que você vai fazer até lá? Você está preparado para viver todo esse tempo?

 

É bem pouco provável que aos trinta anos alguém pense muito no amanhã. Estamos amadurecendo mais tarde e muitos, nessa idade ainda estão na casa dos pais. Não pensam muito em como nem em onde viverão quando já não puderem mais trabalhar. A velhice, quando se tem trinta e poucos anos é algo muito distante. Eu confesso que só passei a me preocupar com isso depois que meu filho nasceu. Passou a ser uma obrigação. Penso sempre que preciso estar viva, preciso estar forte e saudável pelos próximos vinte e cinco anos até que ele consiga “caminhar com as próprias pernas”. Parece absurdo, mas um filho bem criado implica em vida ativa dos pais trabalhando por muito tempo e quase ninguém pensa nisso. Eu que fui “mãe velha” penso.

 

E como vai ser quando ele for embora para a vida adulta? Eu, que estarei com mais de sessenta, espero estar saudável e espero mesmo viver até ficar bem velhinha, porém, para que esse meu sonho se realize preciso cair na real antes de ser mais uma fóbica pelo amanhã. Não sei até quando vou poder trabalhar e não sei se vou poder contar com o estado para me sustentar. Não sei se vou ter quem me ajude, quem cuide de mim e se vou ter forças para cuidar do meu companheiro, que caminha comigo.

 

Acredito que, sonhos à parte, para enfrentar o medo temos que construir um ninho para o nosso amanhã. Um ninho físico e emocional. Não se pode viver sem aceitar que o corpo um dia vai estar mais fraco e vamos ser menos úteis. Quem já passou dos quarenta sabe que nessa fase o mercado de trabalho já se afunila. Os mais novos chegam, vem com mais gás, com menos medos, mais vontade e mais tempo. Depois dos quarenta os dias de trabalho já pesam mais e é bem provável que depois dos sessenta tenhamos que parar ou diminuir quase que totalmente a velocidade e a jornada de trabalho. Aí é que vem a colheita do que se plantou e a constatação de que o tempo passa rápido.

 

Não foram raras as vezes nas quais, dentro do hospital, eu vi pessoas idosas internadas sem acompanhantes. Muitas vezes vi pessoas irem para asilos não só pela pobreza material, mas pela pobreza de vínculos emocionais. Vi muitos sem ter ninguém por eles e outros que, em situação pior, até tinham parentes, mas ninguém disposto a cuidar. Sempre alerto para os perigos de optar pela solidão, e talvez, terminar sozinho seja o maior deles.

 

É preciso saber viver e sabe viver quem conhece a vida, quem olha para fora, percebe, observa e aprende através do outro que já está na frente o que vem por aí. Ao envelhecer vamos precisar de sustento, vamos precisar de um teto e vamos precisar muito mais dos médicos e dos remédios. A nossa locomoção será mais lenta, a nossa energia será escassa e os dias talvez sejam mais longos.

 

Não se pode viver o tempo todo como se não houvesse amanhã porque ele chega e nesse momento todos nós caminhamos na direção dele em velocidade constante e sem possibilidade alguma de parar. Ao viver cada momento da vida intensamente, lembre-se de um dos mais belos contos atribuídos a La Fontaine: A Cigarra e a Formiga. Cante e dance como a cigarra, porém faça também uma reserva como as formigas: tenha um teto, tenha algum bem para lhe garantir o sustento, cuide do seu corpo buscando sempre a longevidade e principalmente plante hoje as relações pessoais que amanhã você possa colher. Tenha a quem pedir um copo de água, uma carona ou mesmo a quem chamar para um café. Não brinque de roleta russa com a vida. Não se iluda com o que hoje parece ser garantia, pois isso pode não durar para sempre. Já cansei de ver - bem de perto diga-se de passagem - histórias de pessoas para as quais a vida deu um grande lição.

 

O amanhã ninguém usou, ele pode ser seu, trabalhe para isso.

 

Créditos Viviane Battistella

Psicóloga, psicoterapeuta, especialista em comportamento humano.

https://www.facebook.com/vivianebattistellapsicologa

 

 

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